Era uma vez Toquinho
Era uma vez
Um lugarzinho no meio do nada
Com sabor de chocolate
E cheiro de terra molhada...
Era uma vez
A riqueza contra
A simplicidade
Uma mostrando pra outra quem dava mais felicidade...
terça-feira, 3 de julho de 2012
CERCADOS POR PROBLEMAS, MAS CHEIOS DE SONHOS
Bragança de Belford Roxo: uma história de paixão pelo futebol
Stela Quedes Caputo
Rio de Janeiro - Brasil
En Bom Pastor, Belford Roxo, municipio de la "Baixada Fluminense" (RJ), región abandonada por el poder público, se sitúan la sede del Bragança Futebol Clube, la Escuela Infantil de Fútbol y el Centro Social Educacional y Deportivo Bragança. La sede de la Escuela Infantil, que viene formando a más de 200 niños en diez años, no pasa de dos paredes levantadas en un terreno adquirido por la familia responsable por esta realización. A pesar de las adversidades del lugar y de las condiciones precarias de vida y trabajo en que se encuentran los niños y sus familias, los sucesos profesionales y los trofeos conquistados en campeonatos y torneos son muchos. "Sueño es compromiso". Y el compromiso no es solo con el fútbol, es con la propia vida.
Laura Moraes, 39 anos, é técnica do Bragança Futebol Clube desde sua fundação, em 26 de janeiro de 1992. Na véspera do time completar 14 anos, ela me recebe em sua casa, na rua Maria Tedin, número 29, em Bom Pastor, Belford Roxo, Baixada Fluminense. Nessa casa simples, Laura mora com sua família, Tosa, seu marido e cabeça de área do time e os dois filhos do casal, Wallace, de 13 anos, cabeça de área como o pai e Kelly, de 11, única da família a não se interessar por futebol, ela quer ser modelo. A sede do melhor time da história de Belford Roxo e da Escolinha de Futebol da Laura, criada na mesma época, também funciona ali, o que não é difícil perceber, já que os móveis da sala tiveram de abrir espaço para os mais de 80 troféus conquistados em campeonatos, torneios e copas.
A Copa Verão de Futebol Amador do Jardim Bom Pastor começa no dia seguinte. Nesse sábado ensolarado, véspera de jogo, em pouco tempo a casa é tomada por 20, 30, 50, crianças que esperam que a técnica distribua os uniformes para o treino. Além de comandar o time, ela lava, passa e guarda todos os uniformes das cinco categorias do clube (fraldinha, pré-mirim, mirim, infantil e juvenil), e do próprio Bragança. "Sempre fiz isso, desde o começo, e agora é ainda mais importante porque algumas camisas têm 10 anos, estão muito puídas e não podemos perdê-las" , explica a técnica. Quem não gosta muito da bagunça é Kelly: "É ruim acordar com as crianças dizendo 1,2,1,2, já aqui na varanda. E quase todo dia é isso. Minha mãe é maluca por futebol, se tem problema do time para resolver ela larga tudo e nem faz comida, sempre sobra é pra mim" , reclama a futura modelo e atriz. A realização da Copa, com término previsto para junho, é do Centro Social Educacional e Esportivo Bragança, também dirigido pelo casal e o campeão receberá R$150,00.
As dificuldades da família, do time e da escolinha são evidentes. Nessa semana de chuvas fortes, a geladeira e o fogão foram colocados em cima de tijolos, já que a água do valão que corta o bairro alagou as casas. "Quase perdemos tudo, mas conseguimos salvar também os documentos e fotos do time, já pensou perder nossa história?" , diz Laura, visivelmente mais feliz por ter salvo as fotos do Bragança do que a geladeira. Entre os documentos salvos está o certificado expedido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Belford Roxo para o Centro Social. Outro, é a renovação de um convênio com a Universidade Suam, para a cessão de profissionais de várias áreas para atuarem no Centro. "Sempre renovamos esse convênio para não perdê-lo, mas nunca pudemos receber os profissionais que trabalhariam com as crianças porque não temos sede" , lamenta Laura. A sede que poderia abrigar a entidade e receber os profissionais para trabalharem com as mais de 200 crianças da escolinha, há dez anos, não passa de duas paredes erguidas em um terreno adquirido pela família em frente à casa de Laura. "Há anos recebemos promessas, seja do poder público ou de políticos. Estamos cansados disso. Contamos mesmo é com nosso esforço e o das crianças. Só que está cada dia mais difícil das famílias contribuírem mesmo para comprar o lanche. A maioria está desempregada ou em empregos precários, nem temos coragem de pedir" , diz Tosa, antes de sair todo animado, levando para o campo, a uns 50 metros de sua casa, cerca de 50 crianças, entre 5 e 17 anos.
CERCADOS POR PROBLEMAS, MAS CHEIOS DE SONHOS
Laura vai ver o jogo e, mal chega, já se entusiasma: "Cadê o lateral? Abre Ronaldo!" A concentração dos times é feita embaixo dos pés de jamelão, única sombra do local. O campo é cercado, de um lado, pelo valão com esgoto a céu aberto e, de outro, pelo aterro sanitário da indústria alemã Bayer. "Agora até que eles tratam mais o lixo químico, mas ainda sofremos quando venta e um pó amarelo entra em nossas casas. As crianças têm alergia" , afirma Laura. Aliás, o campo de futebol utilizado pela escolinha pertence à própria Bayer e está emprestado pela indústria ao clube. "Não há nada escrito, foi só um acordo que a Bayer fez conosco e que vai acabar quando o aterro sanitário precisar cobrir o campo, como já fez com outros terrenos aqui da área. O aterro avança e nosso tempo diminui" , preocupa-se Tosa.
Enquanto Márcio Luiz, jogador do Bragança, treina no campo com os pré-mirins, embaixo do jamelão, Tosa dá orientações aos mirins: "Quem estiver estudando à tarde, treina pela manhã e quem estudar pela manhã treina à tarde. Mas ninguém pode faltar, nem na escola, nem aqui" , determina. Depois do treino, todos tomam banho no chuveiro instalado no quintal da casa de Laura e a técnica distribui novas tarefas. Dois meninos vão comprar mais pão, mortadela e refrigerante, enquanto Kelly vai preparando os sanduíches. Ao todo, 90 pães foram servidos e, depois do lanche, a garotada vai para casa, mas muitos ficam por ali mesmo conversando o resto do dia sobre futebol e sonhos profissionais. Sonhos que para alguns dos ex-craques do Bragança já estão virando realidade. É o caso de Alexandre da Silva Gabriel, o Nikita, atualmente com 19 anos, que, durante uma partida no campeonato de Belford Roxo, no ano passado, marcou dois gols e acabou escolhido por "olheiros" da categoria júnior do Corinthians de Alagoas. "Eles vieram para ver o Nikita e o Leonir, que já tinha sido levado pelo Criciúma de Santa Catarina e levaram o Nikita, mas ele vem nos visitar sempre que pode" , conta a orgulhosa Laura.
Sentados na porta da cozinha, comendo pão com mortadela, outros meninos esperam sua vez. Justamente ali, segundo Tosa, estão os próximos a serem "descobertos". O meio-campo, William Rodrigues de Oliveira, de 14 anos, conhecido como "Dibilim", que já treina também no Núcleo do Fluminense, em Nova Iguaçu, e o atacante Leandro dos Santos, 13 anos. "Sonho também é compromisso. Não basta que eles sonhem, é preciso que se comprometam" , ensina Tosa.
VITÓRIAS PARA ALÉM DO FUTEBOL
O compromisso, segundo Laura, não é só com o futebol, é com a própria vida que, numa região como a Baixada, tão abandonada pelo poder público, nem sempre é fácil de preservar. "Ficamos contentes quando os meninos ganham campeonatos, mas é quando vencem na batalha pela educação e pelo emprego que realmente comemoramos. E olha que nesse jogo os adversários são muitos e, às vezes, mais fortes" , revela a técnica, referindo-se também ao tráfico de drogas. De acordo com Laura, é impossível contabilizar, ao longo desses anos, quantos jogadores morreram por algum tipo de envolvimento com o tráfico na região. "A conta não caberia nos dedos das mãos, acho que já perdemos para o tráfico cerca de 10% a 15% de crianças e jovens que passaram pela escolinha, mas a gente está vencendo essa longa partida" , garante.
J. M.A, de 26 anos, sabe bem o que isso significa. Chamado por Laura, ele conta sua história. "Treino na escolinha desde menino e, mesmo tendo bom aproveitamento e orientação, por causa das necessidades que passava, acabei me envolvendo com drogas e entrando também para o crime. Me afastei da escolinha que era a minha família porque não queria colocar ninguém em risco. Em 2002, durante uma tentativa de assalto, dois companheiros meus foram mortos e fui preso com outros três. Fiquei quase dois anos na prisão. Saí, percebi meus erros e voltei pra cá" , conta J.M, que largou as drogas, arranjou um emprego e começou a estudar. "Agradeço a Deus, à minha família, a Laura e a Tosa. Agora só falta voltar a treinar, não dá para ser craque, mas pelo menos perco essa forma arredondada" , brinca.
NA SELEÇÃO DE LAURA,
O FENÔMENO FICARIA NO BANCO
Preocupada com a seleção brasileira, Laura acha que não se deve confiar no favoritismo do Brasil nessa Copa e manda um recado para o técnico Parreira. "O Ronaldinho fenômeno deve ficar no banco e o Adriano deve ser titular. O principal não é a publicidade, é vencer e o Ronaldo não está bem não" . Se a técnica do Bragança não poupa nem o fenômeno, por que pouparia o marido? "Quando o Tosa joga mal também fica no banco. Não arrisco meu time por nada" , garante.
Apaixonados por futebol desde crianças, Laura Moraes e Aílton Tosa se conheceram nos campeonatos de Beford Roxo. "Eu torcia para o Estrela Azul, jogava em times femininos e ele jogava no Cairu. O futebol nos aproximou e nos une ainda hoje" , diz Laura. O casal se dedica muito à família e também freqüenta a igreja presbiteriana do bairro, mas, não há como disfarçar, não fosse isso, o esporte seria absoluto na vida de ambos. O casamento aconteceu no dia 26 de dezembro de 1987, em plena Copa Infantil de Bom Pastor e a lua-de-mel seguia tranqüila em Muriqui. Tranqüila? Nem tanto. Preocupados com a final, que aconteceria em janeiro de 88, os dois não tiveram a menor dúvida e voltaram muito antes do previsto. "Naquele ano fomos campeões, não perderíamos isso por nada" , garante Tosa. E Laura confirma. Na verdade, Laura e Tosa têm poucas divergências, talvez a única seja a de que ela é flamenguista doente e ele, vascaíno roxo. (NA)
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